terça-feira, 19 de agosto de 2014

Notas de um Postcard

Vê como os galhos nus se recortam no céu nublado nos dias de outono? Parecem garras afiadas querendo rasgar tudo o que está a sua volta. E conseguem.
Rasgam pessoas,
Rasgam o tempo,
Rasgam memórias.
Na última semana me deparei um par de vezes com mensagens do tipo que eletrizam a consciência da existência e o caminho sem volta da morte. Algo do tipo "Você passou uma infinidade de anos sem ter nascido e passará outra infinidade morto".
Daí essas frases geralmente vem com uma outra de incentivo como "Então viva intensamente, saia de casa agora porque há vida lá fora! Carpe diem! Carpe diem!", o que concordo. Só que em parte.
Desculpe se você é um herdeiro de uma fortuna e pode se dar o privilégio de viajar de mochilão pelo mundo a vida inteira, mas para a maioria dos mortais há dias (e como há!) que é preciso ir ao dentista, ficar horas na fila de um banco ou querer dormir a tarde toda para recompor o sono. Feito "Poema da Necessidade" de Drummond, entende?
Acho esse negócio de viver e aproveitar ao máximo muito relativo e romântico demais. Não é preciso declamar como a vida é bela ao mesmo tempo em que se pula com os amigos em um rio em pleno pôr-do-sol para isso. Às vezes só fazer um chá quente, inspirar profundamente e observar meu gato olhando para a janela pode fazer mais sentido.
Não tô dizendo também que ficar na frente do computador 24 horas é legal, não é isso. Pelo contrário, apesar de trabalhar com a internet, ainda fico pasma com, por exemplo, esse pessoal que posta cerca de 5 fotos no instagram diariamente. É muito tempo gasto em vão para tentar parecer que é cheio de atributos e que tem uma vida incrível. Pior que são essas que geralmente postam ditos feito "YOLO" com uma figura pronta do Google de pessoas pulando em um rio durante o pôr-do-sol. Ou a imagem pode até ser real, mas o instante não foi, pois foi justamente pensado para ser postado nas redes sociais. Veja só, tudo não passa de filtro mesmo. 
Todos precisam viver mais intensamente sim, do tipo que nem ao menos se pensa em pegar o celular para tirar uma foto do momento. Mas que esse intensamente seja seu e do seu modo. E relembrando que, por mais chato que seja, é preciso ir ao dentista ainda para consertar aquele dente dolorido. Isso serve até para o mochileiro milionário. 

6 comentários:

  1. Você escreve super bem, adorei tudo que li nesse blog. Parabéns, te acompanho no YouTube e você é tão meiga ♥

    http://identidadeindie.blogspot.com/

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  2. Ahh como eu amo seus textos ♥ e os seus vídeos! Não sei se vai lembrar de mim mas sempre tô comentando nos seus vídeos como "mais que situação" haha

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    1. Lembro sim Andressa, cheguei até a te responder (bem, mais ou menos né haha) num vídeo de "Ask Babs"! Obrigada mesmo, você é uma fofa ♥

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  3. Essa imagem dos galhos nus, me transporta aos filmes e clichês Hitchcockianos, já que a curtição de vida é sempre ensaiada em fotos desumanas e concretas. O prazer existencial é meio que aquilo de um ménage com a alma e o espírito. Não se postam essas coisas. A ânsia de ser notado desfaz os laços com o inconsciente modo de segurança à que se atrela qualquer vida comum. Eu posto, logo existo!? É como você bem disse: "Momentos reais não cabem em fotografias". Quem disse que nós tínhamos que caber?

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  4. Esse assunto tem ficado na minha cabeça faz muito tempo. "Aproveite a vida! Carpe diem!" Babs você me ajudou bastante me deu uma nova visão. Obrigada<3

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